quarta-feira, 8 de maio de 2013

A ÚLTIMA CRÔNICA, de Fernando Sabino





Leia o texto abaixo para responder as questões propostas:


A ÚLTIMA CRÔNICA, de Fernando Sabino
 


A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Texto extraído do livro
"A Companheira de Viagem", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.


QUESTÕES

Compreensão e interpretação do texto


  1. 1.Qual o objetivo desta crônica?
    2.Esta crônica chama a atenção do leitor? Por quê?
    3.É possível reconhecer na crônica em que época esse fato aconteceu? Existe alguma relação entre a situação vivida pela família da crônica e a de nossos dias?
    4.O título do texto sugere algumas interpretações. Converse com seus amigos sobre as sugestões possíveis de um novo título.
    5.Neste texto há ideia de discriminação? (É do autor? Do contexto? Discriminação de raça? De situação financeira?) Podemos dizer, realmente, que há discriminação?
    6.O acontecimento da crônica ocorreu num cenário e envolveu pessoas? Em que cenário? Como você descreveria o botequim?
    7.Quais são as personagens envolvidas no episódio narrado? Comente sobre elas.
    8.O narrador-observador não está presente na festa de aniversário, mas é a personagem central dela, por quê?
    9.Que hipóteses poderíamos formular para o fato de a mãe ter guardado as velinhas?
    10.Há nas duas últimas orações do 2º parágrafo uma crítica a instituição família? Você concorda? Explique.
    11.“Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual”. A que ritual o autor se refere?
    12.O autor diz que o pai demonstra estar satisfeito com a celebração. E você, o que acha?
    13.Em sua opinião o constrangimento do pai, ao perceber que estava sendo notado, é normal?
    14.Apesar da dificuldade financeira, podemos destacar sentimentos nobres na relação daquela família. Cite alguns.

    Análise linguística e estrutura composicional

    15.Há marcas de temporalidade na crônica? Como se manifestam? Causam algum efeito?
    16.Qual o tempo verbal revelado na crônica? Por quê?
    17.Os termos acidental e essencial conferem que sentido no texto?
    18.A linguagem usada na crônica possui um lirismo contido na simplicidade ou é rebuscada?
    19.No segundo parágrafo, ao descrever a menina, o autor utiliza de adjetivos no diminutivo. Que motivo o leva a fazer essa escolha lexical?
    20.Defina crônica, a partir da leitura do primeiro parágrafo do texto de Fernando Sabino.


     

ALGUNS SENTIDOS DA ARTE




Arte: representação do Belo (p.05)

Na Antiguidade: harmonia e proporção entre as formas (modelo de perfeição);

No século XIX: O Romantismo adota o sentimento, a imaginação e a emoção como fórmula da criação artística;

No século XX em diante: deixa de ser apenas representação do Belo e passa a expressar também o movimento, a luz, o cromatismo ou a interpretação geométrica das formas existentes. Na Psicologia, pôde até representar o inconsciente humano. Assim, a arte pode ser entendida como permanente recriação de uma linguagem. Pode ser uma provocação, espaço de reflexão e de interrogação (relação entre o observador e o objeto observado).

Arte: reflexo do artista (ideologia/idiossincrasia – ideais, modo de ver e compreender o mundo); (p.06)

Obra: expressão da época, da cultura (processo histórico / diacrônico)


OS AGENTES DA PRODUÇÃO ARTÍSTICA (P.07)

Contexto de produção (Condições de Produção) – pistas sobre seu significado e intenções de seu produtor / enunciador, intencionalidade literária / artística / discursiva;

Escolhas que realiza: indícios reveladores do contexto de uma dada “realidade”;

O artista promove um diálogo com seus contemporâneos e lhes propõe uma reflexão sobre o contexto em que estão inseridos;

Toda obra de arte interage com um público, o interlocutor. Este “participa” da construção dos sentidos expressos na obra.

Toda obra se manifesta em determinada linguagem com estrutura própria.

Agentes de criação: o artista (tem função social / representa o social), o contexto social, o público-alvo, a linguagem, a estrutura e o contexto de circulação revelam muito de uma obra de arte.


O QUE É LITERATURA?

●A arte que utiliza a palavra como matéria-prima de suas criações é chamada de literatura. Ela existe há milênios. Entretanto, sua natureza e suas funções (papel que a literatura desempenha nas sociedades) continuam objeto de discussão principalmente para os artistas, seus criadores. (p.09)

O homem, como ser histórico, tem anseios, necessidades e valores que se modificam constantemente. Suas criações ‒ entre elas a literatura ‒ refletem seu modo de ver e de estar no mundo. Assim, ao longo da história, a literatura foi concebida de diferentes maneiras. Mesmo os limites entre o que é e o que não é literatura variaram com o tempo. Vejamos algumas funções do texto literário: (p.910)

A literatura nos faz sonhar (descanso para os problemas cotidianos, espaço de sonho e fantasia) 
A literatura provoca reflexões (responde a perguntas que inquietam o Homem);

A literatura diverte (crônicas, por exemplo);

A literatura é a construção de nossa identidade (história coletiva /social / nacional);

A literatura nos “ensina a viver” (humanização do homem);

A literatura denuncia a realidade (valorização dos direitos humanos).

●Literatura e engajamento político (consciência política)

LITERATURA E REALIDADE
As obras literárias, ao utilizar a palavra, recriam a realidade, a vida. Essa definição focaliza dois aspectos opostos, mas complementares, da arte literária: criação e representação. Por um lado ela é invenção. O autor/ artista/ enunciador cria uma realidade imaginária, fictícia, verossímil. Mas o universo da ficção mantém relações vivas com o mundo real. Nesse sentido, a literatura é imitação da realidade. (p.11)
Frequentemente os autores utilizam fatos de suas vidas como matéria de literatura. São as chamadas confessionais. Mesmo nesses casos, não devemos entender os textos como simples biografias. Os fatos pessoais são apenas parte da matéria literária, o ponto de partida. Entre o que o autor viveu ou sentiu e a obra existem todas as mediações da invenção, da imaginação. Há, sobretudo, o trabalho criativo com a palavra, que pode ser em versos ou em prosa.

PARA QUE SERVE A ARTE?
PARA QUE SERVE A LITERATURA?
Variam com o tempo e com as pessoas para se responder a essas perguntas. Evidentemente, a função de uma obra literária depende dos objetivos e das intenções do autor. Mas os leitores também têm maneiras diferentes de ler e são levados a abrir um livro por motivos diferentes. Alguns buscam na literatura apenas um divertimento sem grandes conseqüências para a vida; outros, um instrumento de transformação e de aperfeiçoamento. Já outros esperam que seja um veículo de análise e de crítica em relação à sociedade e à vida. A literatura é uma arte verbal, isto é, seu meio de expressão é apalavra, mas esta não é privilégio do escritor, pois ela serve como forma de expressão para todas as pessoas. No entanto, há uma diferença entre a linguagem literária e a linguagem usada na comunicação diária. Essa diferença reside no trabalho criativo do escritor durante a elaboração de seus textos, na sua capacidade de criar mensagens que podem ser lidas ou interpretadas de diferentes modos, conforme o nível de leitura do leitor, não podendo esquecer que a leitura é um processo ativo de atribuição de sentido a um texto.
Conotação (sentido conotativo ou figurado): É quando as palavras não são empregadas no sentido costumeiro, mas, ao contrário, fazem o leitor parar e refletir, despertando nele outras ideias. O uso literário das palavras promove a multiplicação dos sentidos e, assim, permite que o texto sofra diferentes leituras e interpretações. O uso conotativo da linguagem faz com que as palavras ganhem novos / diferentes significados (Plurissignificação) e produzam interessantes efeitos de sentido
Denotação (sentido denotativo ou literal): É quando queremos deixar bem claro a mensagem, tal como vem registrado nos dicionários.

Texto literário: predomina a função poética, pois apresenta a linguagem centrada nas emoções do observador e a preocupação intencional com o modo de expressá–la.

As características mais evidentes de um texto escrito em prosa são a organização linear e a sua divisão em parágrafos ‒ enunciados de sentido completo compostos de frases, orações e períodos.
o poema é a forma de linguagem organizada em versos cada uma das linhas do poema e em estrofes um conjunto de versos. Poesia, além de se referir à arte poética, é o nome que se dá ao conjunto da produção em versos de um poeta. Mais do que forma, poesia significa um contexto rico de encanto, de emotividade.

O TEXTO LITERÁRIO APRESENTA:
Ficcionalidade: os textos não fazem, necessariamente, parte da realidade.
Função estética: o artista procura representar a realidade a partir da sua visão (subjetiva).
Plurissignificação: nos textos literários as palavras assumem diferentes significados.
Intertextualidade: um autor faz referência a outro (a outros) texto(s), com o objetivo de apoiar o que já foi dito ou de dizer algo totalmente diferente, de criticar um ponto de vista, uma visão de mundo. Inclui os textos verbais e não verbais e pode ser explícita ou implícita.
Polifonia: os textos são essencialmente polifônicos, isto é, são atravessados por uma multiplicidade de vozes: uma voz privilegiada, a do locutor principal, que vai incorporando outras, quando temos citações diretas e indiretas, individuais e coletivas.
Subjetividade: expressão pessoal de experiências, emoções e sentimento.