domingo, 19 de maio de 2013

Linguagem Verbal e Linguagem Não-Verbal

A Comunicação Verbal e não-verbal


A Comunicação é entendida como a transmissão de estímulos e respostas provocadas, através de um sistema completo ou parcialmente compartilhado. É todo o processo de transmissão e de troca de mensagens entre seres humanos.

Esquema da Comunicação


Contexto
Emissor Mensagem Receptor

Contacto

Código


O que é linguagem? É o uso da língua como forma de expressão e comunicação entre as pessoas. Agora, a linguagem não é somente um conjunto de palavras faladas ou escritas, mas também de gestos e imagens. Afinal, não nos comunicamos apenas pela fala ou escrita, não é verdade?
Então, a linguagem pode ser verbalizada, e daí vem a analogia ao verbo. Você já tentou se pronunciar sem utilizar o verbo? Se não, tente, e verá que é impossível se ter algo fundamentado e coerente! Assim, a linguagem verbal é que se utiliza de palavras quando se fala ou quando se escreve.

A linguagem pode ser não verbal, ao contrário da verbal, não se utiliza do vocábulo, das palavras para se comunicar. O objetivo, neste caso, não é de expor verbalmente o que se quer dizer ou o que se está pensando, mas se utilizar de outros meios comunicativos, como: placas, figuras, gestos, objetos, cores, ou seja, dos signos visuais.
Vejamos: um texto narrativo, uma carta, o diálogo, uma entrevista, uma reportagem no jornal escrito ou televisionado, um bilhete? Linguagem verbal!
Agora: o semáforo, o apito do juiz numa partida de futebol, o cartão vermelho, o cartão amarelo, uma dança, o aviso de “não fume” ou de “silêncio”, o bocejo, a identificação de “feminino” e “masculino” através de figuras na porta do banheiro, as placas de trânsito? Linguagem não verbal!
A linguagem pode ser ainda verbal e não verbal ao mesmo tempo, como nos casos das charges, cartoons e anúncios publicitários.

Observe alguns exemplos:

Soneto de Fidelidade
"De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
(Até um dia meu anjo)"


O Soneto de Fidelidade de Vinícius de Morais corresponde a um belo exemplo de linguagem verbal, através de palavras.


 
A pintura de Tarsila de Amaral é um exemplo de linguagem não-verbal dentro da pintura. Para cada pessoa será uma mensagem.

 
Cartão vermelho – denúncia de falta grave no futebol.


 
Charge do autor Tacho – exemplo de linguagem verbal (óxente, polo norte   2100) e não verbal (imagem: sol, cactus, pinguim).


 
Placas de trânsito – à frente “proibido andar de bicicleta”, atrás “quebra-molas”.
 


  O semáforo é um exemplo de linguagem não-verbal. Um objeto capaz de interferir na vida do ser humano de forma tão extraordinária, onde o sentido das cores comanda o trânsito.
 





 Na história em quadrinhos de Maurício de Sousa fica bem claro como pode ocorrer ao mesmo tempo linguagem verbal e não-verbal, chamada de linguagem mista. Tem palavras e figuras.
 
 
 
A foto mostra uma mímica, através da feição do protagonista tem um significado, uma mensagem. Aqui ocorre linguagem não-verbal.


Conclusão: na interacção pessoal, tanto os elementos verbais como os não-verbais são importantes para que o processo de comunicação seja eficiente.

NÍVEIS DE LINGUAGEM

       A linguagem é qualquer conjunto de sinais que nos permite realizar atos de comunicação. Dependendo dos sinais escolhidos, teremos uma comunicação verbal visual, auditiva, etc.
A linguagem que mais utilizamos para praticar atos de comunicação é a língua, que é um conjunto de palavras e regras para a combinação dessas palavras, utilizado pelos membros de uma comunidade.
Dá-se o nome de fala à utilização que cada membro da comunidade faz da língua, tanto na forma oral quanto na escrita. A forma oral se caracteriza por maior espontaneidade do que a forma escrita. Dessa forma, em decorrência do caráter individual da fala, pode-se observar que ela possui vários níveis, segue abaixo os mais utilizados:

Formal (culto): é o nível de fala utilizado pelas pessoas cultas, em situações formais. Caracteriza-se por um cuidado maior com o vocabulário e pela obediência às regras estabelecidas. Observe o exemplo abaixo:
“Depois da campanha mais disputada e volátil dos últimos tempos, os resultados parciais de apuração e as projeções dão a vitória ao democrata Bill Clinton nas eleições à presidência dos Estados Unidos, realizadas ontem.”
 
Informal (coloquial/popular): é a fala que a maioria das pessoas utiliza no seu dia-dia, sobretudo nas situações mais formais. Caracteriza-se pela espontaneidade, pois não existe uma preocupação com as normas estabelecidas pela comunidade lingüística. Observe o exemplo abaixo:
“Sei lá! Acho que tudo vai ficar legal. Pra que então ficar esquentando tanto? Me parece que as coisas no fim sempre dão certo.”
Técnico (profissional): é a fala que alguns profissionais (advogados, economistas, etc.) utilizam no exercício de suas atividades profissionais. Observe o exemplo abaixo:
“Vamos direto ao assunto: interface gráfica ou não, muitas vezes, é preciso trabalhar com o prompt do DOS, sendo aborrecedor esforçar-se na redigitação de subdiretórios longos ou comandos mal digitados.”
Revista PC World, ago/1992. p. 98.

Literário (artístico): é a utilização da língua como finalidade expressiva, como a que é feita pelos artistas da palavra poetas e romancista. Observe o exemplo abaixo:
“O céu jogava tinas de água sobre o noturno que me devolvia a São Paulo. O comboio brecou, lento, para as ruas molhadas, furou a gare suntuosa e me jogou nos óculos menineiros de um grupo negro.
Sentaram-me num automóvel de pêsames.”
(Memórias Sentimentais de João Miramar. 
Oswald de Andrade)


ESTUDO DA CRÔNICA (Eloisa Silva Moura)

ESTUDO DA CRÔNICA
Eloisa Silva Moura
Resumo
 
Este estudo propõe uma abordagem ao estudo da crônica como um exercício reflexivo em quatro eixos: a) o que é a crônica; b) a linguagem da crônica: c) a tipologia da crônica  e d) a crônica no Brasil. A fundamentação teórica desenvolve-se com um olhar a partir de Martins (1985) entre outros estudiosos do gênero. Martins afirma que: a crônica é: “um fazer em trânsito entre o jornalismo e a literatura, e nutre-se do instigante diálogo com o leitor”. O estudo pretende também averiguar as possibilidades e os limites da crônica como texto de análise compreensiva no campo dos estudos literários. É de cunho bibliográfico e procura auferi, ao gênero crônica, um novo “status” tal qual outros gêneros consagrados, embora Antonio Candido afirme que uma literatura não se faz apenas com grandes cronistas.
 
Palavras-chave: Crônica. Jornalismo. Literatura.
 
INTRODUÇÃO
 
   Para a realização do estudo da crônica faremos inicialmente um exercício reflexivo em quatro eixos: o que é a crônica, a linguagem da crônica, a tipologia da crônica e a crônica no Brasil.
      A partir do debate sobre os gêneros literários que dizem respeito à História, à Filosofia, bem como à Teoria da Literatura, esse tema, longe de ser esgotado, continua vivo e na ordem do dia.
     Os gêneros literários são formas de uma visão de mundo e de um pensamento, pois através da compreensão do fato literário, chega-se a um entendimento da cultura de uma época, de um povo. A etimologia do vocábulo gênero, do latim genu, eris que significa tempo de nascimento, origem, classe, espécie, geração, leva-nos a compreender que os gêneros são modelos absolutos, entidades normativas se deve submeter a criação artística.
   Aristóteles primeiramente estudou os gêneros e agrupando-os, conforme características semelhantes designaram-nos: gênero épico, gênero lírico e gênero dramático. A questão é controversa, segundo Moisés (1984, p. 45) e depende da posição tomada pelo estudioso, se historiográfica ou filosófica.
    Horácio retomou Aristóteles, agregando seu estudo à cultura romana, o que resultou na concepção do credo clássico: “Os gêneros literários são modelos absolutos, entidades normativas às quais se deve submeter à criação artística em termos de literatura” (PIRES, 1980, p. 65). 
     Se consideradas as características dos gêneros literários, poder-se-ia destacar o que segue:
a) a imutabilidade: cada obra obedece sempre ao paradigma do seu gênero;
b) a fixidez: a criação poética só pode ser lírica, épica ou dramática;
c) a unidade de emoção: cada obra deve encerrar somente um tipo de emoção;
d) a hierarquia artística: há gêneros nobres (tragédia, epopéia) e gêneros plebeus (comédia). 
 
     Essa concepção clássica foi acolhida pelo Renascimento, predominando nos séculos XVI, XVII e XVIII. Por outro lado, o Romantismo, no século XIX, descartou as teorias neoclássicas e estabeleceu um novo credo para os gêneros literários, considerando-os mutáveis não sendo possível entre eles uma hierarquia artística.
     Assim, no século XIX, esses mesmos gêneros passaram a representar conjuntos de obras de características comuns, expressas em linguagem poética, conforme a espécie: gênero narrativo (epopéia, ficção, biografia), gênero lírico (poesia), gênero dramático (tragédia e comédia) e gênero ensaístico (ensaio, crônica).
    As diversas interpretações atribuídas aos gêneros como os clássicos admitiam que os mesmos, segundo um conceito mais ou menos imutável, poderiam se apresentar estratificados e hierarquizados, outras posições foram surgindo, chegando até Croce com a negação decisiva da valida de e da existência dos gêneros literários. Assim, conforme Martins (1985), os gêneros contemporaneamente estão determinados pelo tipo de relações que se estabelece entre eles e seu público, podendo se dizer que há um vinculo de aproximação entre autor – obra - leitor de tal forma que as características formais, estruturais e temáticas de um texto possam ser definidas como integrantes de um gênero vivo.
 
CONCEITO DE CRÔNICA
 
     Martins (1985, p. 3) nos diz que a crônica é um fazer em trânsito entre o jornalismo e a literatura, e ainda “nutre-se do instigante dialogo com o leitor”. Valendo-nos de uma expressão de Sá (2001, p.7), a crônica seria “o registro do circunstancial”. Desse modo podemos acreditar que a crônica não se produz em uma única direção ou vertente, daí a existência de uma tipologia trabalhada por alguns autores. Assim as definições de crônica são múltiplas como de Pólvora (1975, p. 49) que a descreve nestes term os:
    Se tentarmos definir a crônica como possível gênero subordinado a certas regras fundamentais, veremos que ela se assenta em bases flutuantes. Situa-se bem dizer, numa terra de ninguém, no território comum banhado pelos extravasamentos do conto, do poema e do artigo de jornal. Seus limites avançam pelos lindes alheios ou por estes se deixam penetrar.
      A reflexão de Pólvora aproxima-se da idéia de Paes e de Moisés (1967, p. 82) quando caracterizam a crônica brasileira. A crônica se confunde com aquilo que nas literaturas de língua inglesa, se conhece pelo nome de ensaio pessoal, informal, familiar ou “sketch”. Gênero menor, cujas fronteiras imprecisas confinam com o ensaio de idéias, do memorialismo, do conto e do poema em prosa, a crônica se caracteriza pela extensão limitada.
    Outros conceitos como Gomes (2003, p. 39-40) que argumenta que a crônica se expressa em linguagem pouco formal na qual as idéias são encadeadas menos por nexos lógicos que imaginativos. Já Roncari (1985, p. 14) adverte que a crônica retrata o tempo, traz a imagem do turbilhão, remexe a ordem do mundo e não deixa nada fixo no lugar. Por outro lado, Oliveira (1973, p. 16) assevera que a crônica é um modo inventado ninguém sabe como, no jornalismo, de deixar o leitor respirar, pensar um pouco.
     Crônica é então uma divagação desinteressada que se transforma em pequeno ensaio no qual a síntese se sobrepõe ao des dobramento das sugestões ou idéias pessoais e íntimas de que está formada a sua substância e transforma o ensaio em crônica com certo fim previsto. A crônica é também uma espécie de mundo e por isso, mundo do próprio narrador e não poderia fugir à comunicação direta: de cronista para leitor através de amenidades, lembranças, fantasias.
    Conforme a etimologia da palavra, o gênero define tentativa, experiência sobre vários assuntos em tom íntimo e familiar. Para Arrigucci (1985, p. 43), os significados da palavra crônica implicam noção de tempo, pois tem origem no grego krónos. Arrigucci descreve que se trata de um relato em permanente relação com o tempo do qual tira sua matéria principal, o que fica vivido – uma definição que se poderia aplicar ao discurso da História, a que um dia ela deu lugar. E também para o mesmo autor um meio de inscrever a História no texto. Martins (1985, p. 4) admite que o termo crônica tem múltiplos conceitos, porém, na passagem do jornal para o livro, sua primitiva significação etimológica perdeu-se.
     A evolução do significado de crônica histórica na Idade Média se mantém até o século XVIII e XIX quando se transforma em artigo de consumo. Com o surgimento dos jornais, mudanças acontecem na vida literária e a visão de mundo modifica-se, sob influência do sistema capitalista. Meyer (1992, p.96) qualifica o folhetim como espaço vazio destinado ao entretenimento. O folhetim, nos começos do século XIX, na França, tem um lugar preciso no jornal: orez – de – chaussée – rés – do – chão, rodapé, em geral na primeira página. 
 
A CRÔNICA: CARACTERISTICAS
 
      Considerando que a crônica é um gênero literário misto, porque engendra uma fusão entre a Literatura e o Jornalismo. Moisés (1983, p. 248) assegura que: em toda a crônica os indícios de reportagem se situam na vizinhança, quando não mescladamente, com o literário: e é a predominância de uns e de outros que fará tombar o texto para o extremo do Jornalismo ou da Literatura.
      Esse autor reconhece no gênero um estilo marcado pela oralidade, que se caracteriza por apresentar ambigüidade, subjetividade, diálogo, temas do cotidiano, ausência de transcendência e efemeridade.
      Já Lima (2001, p. 05) argumenta:
    A crônica transita entre estes dois pólos, entre ser no jornal e para o jornal. Diferencia-se do texto jornalístico, por não visarà informação, pois seu objetivo (declarado ou não) é ultrapassar o mero comentário diário, a banalidade dos acontecimentos humanos, e atingir a universalização, mesmo que sua temática se utilize do fait divers e do que se costuma considerar trivial.
      Assim, segundo a autora em questão, a crônica recria o cotidiano, valendo-se do imaginário, que se realiza no influxo das impressões do cronista ao mesclar em seu texto outros gêneros tais como o conto, o ensaio ou a poesia.
     O cronista Machado de Assis (1859) refere-se ao folhetim como “frutinha do nosso tempo, o folhetinista é a fusão agradável do útil e do fútil”. A crônica, na criação de Machado e de José de Alencar, nos jornais do século XIX, versava geralmente sobre matéria literária, política, teatro e acontecimentos históricos nacionais e internacionais.
      Antonio Candido (1992, p. 13) se posiciona a respeito da crônica, afirmando que a mesma não é um gênero maior. Diz o já referido autor que os assuntos tratados nas crônicas possuem composição aparentemente solta, pairando sobre a mesma “um ar de coisa sem necessidade”, porém encanta porque trata geralmente do cotidiano. 
    A linguagem coloquial aproxima o texto do leitor e imprime um tom de humanidade ao relato. Isso o autor o faz usando o humor e retirando a sua seriedade para, através da leveza, conquistar o leitor. Outra característica da crônica atribuída por Antonio Candido (1992, p. 14) é “a crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas”. O exercício que a crônica propõe é mostrar a grandiosidade no miúdo, no singular e no inesperado.
     O autor assegura que a proximidade do cotidiano realiza na linguagem da crônica “a quebra do monumental e da ênfase” e atesta ainda que a crônica produz comunhão, estabelece um elo entre os autores “acima da sua singularidade e das suas diferenças”. Sendo assim os autores têm uma dupla colaboração, isto é, uma coletiva na comunidade de autores e outra acontece na sua expressão pessoal.
    Concluindo Candido (1992, p. 19) atribui à crônica um modo peculiar de aprendizado divertido, constituindo-se em “veículo privilegiado para mostrar de modo persuasivo muita coisa que, divertindo, atrai, inspira e faz amadurecer a nossa visão das coisas”.
    Para o cronista Fernando Sabino (1980, p. 21- 22) a crônica é “a busca do pitoresco ou irrisório no cotidiano de cada um”. Declara ainda que a descrição da crônica compreende “a vida diária, o disperso conteúdo humano”. Sabino como autor torna-se um simples espectador e a temática adequada para sua crônica é “leve e breve”.
      Por tudo que expusemos, conclui-se que a crônica é um gênero produzido para ser veiculado na imprensa, nas páginas das revistas ou dos jornais, podendo depois se transformar em livro. Atualmente, o gênero crônica apresenta identidade própria, entre os limites do jornalismo e da literatura e o que realmente vai distingui-lo são os artifícios de linguagem.
 
A LINGUAGEM DA CRÔNICA
 
   A crônica é uma narrativa breve que registra o circunstancial, cuja linguagem é a soma do estilo literário e do estilo jornalístico. O cronista pretende, através da crônica, uma provocação, uma atitude / resposta no leitor. 
    A crônica explora a função poética da linguagem e mobiliza os seguintes recursos estilísticos: linguagem metafórica, alegorias, repetições, antíteses, ironia, comicidade, suspense, reflexões, argumentações etc.
     O conteúdo híbrido da crônica é uma variação entre a conversa fiada da esquina, o devaneio das lembranças, o comentário da falta de assunto, o instante poético, ou a ponderação reflexiva que nos conduz a pensar a condição humana. Assim o cronista precisa engendrar um texto artístico, que ultrapassa a mera informação. Portanto, a crônica exige do cronista uma dupla atitude: criar literatura e expressar-se com criatividade.
     Martins (1985, p. 3) contribui para o estudo da linguagem da crônica quando argumenta que: “a crônica é um gênero com muitos leitores no qual o cronista registra vertiginosamente a fisionomia e a alma de seu tempo”. A autora complementa sua idéia acrescentando a autonomia da espécie com linguagem peculiar e formas próprias que resultam em um maior comprometimento do gênero crônica com a literatura.
      Conforme Sérgio Farina (1994, p. 13), temos: “a crônica, pelo visto, é uma composição breve e livre que faz florescer, no pistilo do instante, algum momento do nosso cotidiano”. Para o autor há uma proximidade da crônica com o poema, vinculando-a a uma consangüinidade literária.      
     A crônica pode também ser chamada de “conversa fiada” uma forma figurativa que estimula mais assunto, pois quem lê comenta com quem leu ou vai ler, pede opinião, concorda, discorda e assim acontece a interlocução mesmo com a ausência do autor. David Coimbra (2004) vê a crônica situada no tempo, na atualidade como um enfeite, um adereço à realidade, uma provocação.
     Em síntese, a crônica quer resgatar em cada leitor um lirismo e uma reinvenção do cotidiano própria de seu discurso, e a riqueza da linguagem da crônica acontece através de múltiplos aspectos combinados, que jogam com a mudança da forma de olhar o mundo, valendo-se apenas das palavras. Contudo, as palavras não são dispostas livremente, mas na relação de força entre o eu e o outro, em todos os níveis como propõe Martins (1985, p. 4): “no material, na forma, no conteúdo, num todo inseparável”. 
 
 A CRÔNICA BO BRASIL
 
     Davi Arrigucci Jr. (1987, p. 52 – 53) considera que, no Brasil, a crônica não é um apêndice do jornal, mas reconhece a influência européia. O referido autor acrescenta que a crônica brasileira tem uma história específica e bastante expressiva no espaço da produção literária. O assunto predominante são fatos corriqueiros do dia – a – dia, os fait divers, fatos de atualidade. O autor complementaainda que a crônica combina a conversa com a vida de todo o dia. Outro traço singular da crônica brasileira é o florescimento como forma peculiar, com dimensão estética e relativa autonomia.
    Assim a crônica é uma narrativa curta, um registro circunstancial, conforme Sá (2001, p. 6) que, na atualidade, se destina aos muitos leitores, que no Brasil nasceu com a narrativa do descobrimento.
    Margarida de Souza Neves (1992, p. 76), ao falar das crônicas cariocas, do século XIX ao século XX, diz que:é possível uma leitura que as considere “documentos” na medida em que se constituem como um discurso polifacético que expressa, de forma contraditória, um “tempo social” vivido pelos contemporâneos como um momento de transformações.
   Essas transformações, na perspectiva da autora, perpassam as “imagens da nova ordem”, isto é, uma passagem de século num novo tempo que se instala.
      A crônica, nos primórdios, representa então a visão dos “narradores daquele tempo vivido”, pelos autores e leitores, “momento de transformações e de rupturas”.
     O local onde aconteceram essas manifestações de forma mais evidenciada foi na cidade do Rio de Janeiro, capital, que dita o modo de ser e de viver para o restante do País.
  As crônicas cariocas nos mostram um “universo contraditório e os matizes ocultos pelo simbolismo reducionista da fórmula positivista da ORDEM COMO PROGRESSO”. As crônicas cariocas desse período retratam uma reinvenção do cotidiano, “lugares da memória”.
     Podemos aproximar a visão de Luciana Stegagno Picchio (1997, p. 251), sobre o século XIX, período em que surge a crônica no Brasil como “umacontecimento que se revelará para a  própria existência do Brasil como nação unitária e como comunidade cultural portadora de uma literatura autônoma”.
    Na perspectiva de Luiz Roncari (1985, p. 9), o estudo da crônica compreendia: “não só o envolvimento de um gênero, mas a própria produção literária, com jornais e revistas nos séculos XIX e XX”.
    Enquanto Lima (2001, p. 43), sobre a crônica brasileira, argumenta nos seguintes termos: a crônica, como a consagramos em nosso País, é um gênero híbrido, eminentemente brasileiro, que traz em seu conteúdo a conversa fiada da esquina, o devaneio das lembranças, o comentário da falta de assunto, o instante poético, ou a ponderação reflexiva que faz pensar nossa condição humana.
     Neves (1992, p. 77) apresenta-nos algumas nuanças da crônica: “esses textos breves e saborosos que passam a ocupar na grande imprensa o espaço anteriormente ocupado pelo folhetim constitui-se simultaneamente um prazer e uma árdua tarefa”.
     Em síntese, no Brasil a crônica popularizou-se no século XIX voltada para a realidade mundana da cidade, e nos tempos atuais é “um modo de ser brasileiro, uma fórmula que nos convém” segundo Pólvora (1975, p. 49).
 
A TIPOLOGIA DA CRÔNICA
 
    A crônica oscila entre a “própria ambigüidade” e a “mobilidade permanente”, conforme Martins (1985, p. 11), e estas peculiaridades não permitem um registro tipológico definido.
     Porém a variação de gênero enriquece e distingue a crônica. A crônica passa: pelo poema, pelo conto, pelo debate e pela argumentação, aproximando-se da reportagem e do comentário, então se impõe como gênero através de sua imprecisão. Assim a crônica jornalística, de tratamento literário desloca-se do jornal para o livro.
     Recuperando um desdobramento da crônica a partir de Martins (1977), que propõe uma tipologia, temos:
 
Crônica – reportagem: que não seja apenas linguagem de referência ou informação, mas a notícia lírica, o fato coruscante de subjetividade, favorecendo o desbordamento da alma do cronista ou sua crítica irônica à sociedade. O exercício do autor nesta crônica será desfolhar o relato de jornal – simples notícia – um acontecimento avulso que transcende o cotidiano e transformá-lo em literário;
 
Crônica – conto: quando a crônica, notoriamente, acentua o aspecto narrativo, mesmo sem muita preocupação com a estrutura. O cronista passa a ser apenas o narrador, o historiador de um episódio ou fato, quando o acontecimento passa a primeiro plano;
 
Crônica – epigramática / humorística: caracteriza-se por satirizar situações, fazendo o leitor sorrir, através de um jogo de palavras. Aqui predomina o olhar indulgente do cronista a tudo que vê. Depois reproduz com uma graça, um sorriso doce de bom humor;
 
Crônica – poema: também chamada de poema em prosa, caracteriza-se por trazer uma nova dimensão à linguagem. São as crônicas em que o lirismo e a sonoridade chegam a cunhar versos, exercício natural de intimidade do poeta com o leitor e consigo mesmo.
 
    Por outro lado, Afrânio Coutinho (1988) propõe uma classificação dos cronistas brasileiros distribuindo-os em “cinco categorias”. As categorias seriam as seguintes: crônica do tipo narrativo, crônica do tipo informativo, crônica de inclinação filosófica e a crônica poema – em – prosa, contudo o autor nos adverte que a classificação não é estanque, sendo possível uma tendência a mistura dos tipos. Cada cronista trabalha a linguagem buscando, antes de tudo, a literariedade, a criação e uma expressão de mundo apropriada. 
 
REFERÊNCIAS
 
ARRIGUCCI JR., Davi. Enigma e comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
 
CANDIDO, Antonio et al. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas, SP: UNICAMP. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992.
 
COIMBRA, Davi. Crônica (Palestra). Porto Alegre; Faculdade de Letras PUCRS, 19abr. 2004. Coordenação: Profa. Dileta Silveira Martins.
 
COUTINHO, Afrânio. A filosofia deMachado de Assis e outros ensaios. Rio Janeiro: Livraria São José, 1959.
 
FARINA, Sérgio. Quando o texto é uma crônica. Revista Palavra Como Vida, ano 3, n. 19, maio 1994.
 
GOMES, Luis Antonio Paim. A pós-modernidade na crônica jornalística de Diogo Mainardi. Porto Alegre: PUCRS, 2003. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
 
LIMA, Elaine Azambuja de. O lugar do leitor na crônica contemporânea brasileira. Porto Alegre: PUCRS, 2001. Tese (Doutorado). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
 
MARTINS, Dileta Silveira. As faces cambiantes da crônica moreyriana. Porto Alegre: PUCRS, 1977. Dissertação (Mestrado).Pontificia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
 
__________. O estudo da crônica. 1985 (Mimeo.)
 
MEYER, Marlise. Folhetim: uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
 
MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa. São Paulo: Cultrix, 1983.
 
PIRES, Orlando. Manual de teoria da literatura. Rio de Janeiro: Presença, 1980.
 
PÓLVORA, Hélio. Graciliano, Machado, Drummond e outros. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975.
 
SÁ, Jorge de. A crônica. São Paulo: Ática, 2001.
 
 
 
 
 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O CÓDIGO, A LÍNGUA, AS VARIEDADES LINGUÍSTICAS...



O CÓDIGO, A LÍNGUA, AS VARIEDADES LINGUÍSTICAS,
DIALETOS E REGISTROS

O CÓDIGO

Na reportagem, o escritor interage com o leitor fazendo uso da língua portuguesa. A língua portuguesa é um CÓDIGO VERBAL. Código é uma convenção, estabelecida por um grupo de pessoas ou por toda a comunidade, que permite a construção e a transmissão de mensagens. Além da palavra, oral e escrita, também são códigos os sinais de trânsito, os símbolos, o código Morse, as buzinas dos automóveis, etc.

CÓDIGO é um conjunto de sinais convencionados socialmente para a construção e a transmissão de mensagens.

Os códigos são muito utilizados quando há necessidade de informar e comunicar com rapidez. Por essa razão é comum haver códigos na rua, no trânsito, rodoviárias, aeroportos, etc.


A LÍNGUA

A língua portuguesa é o código mais utilizado por nós, brasileiros, nas situações de comunicação e interação social. Por isso, quanto maior for o domínio que temos da língua, maiores são as possibilidades de nos comunicarmos com eficiência. Dominar Bem uma língua não é apenas conhecer seu vocabulário. É também necessário conhecer e dominar suas leis combinatórias. Podemos, por exemplo, conhecer cada palavra desse enunciado:

“Aumento segunda-feira na tem novo próxima gasolina.”

Porém, ele nada significa para nós, porque não foram respeitadas as leis de combinação das palavras. Observe como o enunciado ganha sentido, se combinarmos as palavras desta forma:

“Gasolina tem novo aumento na próxima segunda-feira.”


Assim, LÍNGUA é um código formado por signos (palavras) e leis combinatórias por meio do qual as pessoas se comunicam e interagem entre si.

Ela pertence a todos os membros de uma comunidade, os falantes; por isso, faz parte do patrimônio social e cultural de cada coletividade. Temos então uma generalização: há um código que todo falante da língua conhece e utiliza... Ao mesmo tempo, as formas de se utilizar tal código são variáveis, conforme aspectos sociais, regionais, de gêneros, individuais... a fala e a escrita, portanto, são usos individuais da língua.

TODA LÍNGUA É UM CÓDIGO, MAS NEM TODO CÓDIGO É UMA LÍNGUA.



AS VARIEDADES LINGUÍSTICAS

Cada um de nós começa a aprender a língua em casa, em contato com a família e com as pessoas que nos cercam. Aos poucos vamos treinando nosso aparelho fonador (os lábios, a língua, os dentes, os maxilares, as cordas vocais) para produzir sons, que se transformam em palavras, em frases e em textos inteiros. E vamos nos apropriando do vocabulário e das leis combinatórias da língua, até nos tornarmos bons usuários dela, seja para falar ou ouvir, seja para escrever ou ler.
Em contato com outras pessoas, na rua, na escola, no trabalho, observamos que nem todos falam como nós. Isso ocorre por diferentes razões: porque a pessoa vem de outra região; por ser mais velha ou mais jovem; por possuir maior ou menor grau de escolaridade; por pertencer a grupo ou classe social diferente. Essas diferenças no uso da língua constituem as variedades linguísticas.

Variedades linguísticas são as variações que uma língua apresenta, de acordo com as condições sociais, culturais, regionais e históricas em que é utilizada.

Entre as variedades da língua, a que tem mais prestígio é a variedade padrão.Também conhecida como língua padrão ou norma culta, essa variedade é utilizada na maior parte dos livros, jornais e revistas, em alguns programas de televisão, nos livros científicos e didáticos, e é ensinada na escola. As demais variedades linguísticas – como a regional, a gíria, o jargão de grupos ou profissões – são chamadas genericamente de variedades não padrão.

DIALETOS E REGISTROS

Há dois tipos básicos de variação lingüística: os dialetos e os registros. Os dialetos são variedades originadas das diferenças de região ou território, de idade, de sexo, de classes ou grupos sociais, e da própria evolução histórica da língua.
As variações de formalismo ocorrem de acordo como grau de formalismo existente na situação; com o modo de expressão, isto é, se se trata de um registro oral ou escrito; com a sintonia entre os interlocutores, que envolve aspectos como graus de cortesia, tecnicidade (domínio do vocabulário específico de algum setor), etc.

Observe as diferenças que geralmente existem entre as modalidades falada e escrita da língua:
Fala:
1.    não planejada
2.    fragmentária
3.    incompleta
4.    pouco elaborada
5.    predominância de frases curtas, simples ou coordenadas
6.    pouco uso de passivas

Escrita:
1.    planejada
2.    não fragmentária
3.    completa
4.    elaborada
5.    predominância de frases complexas, com subordinação abundante
6.    emprego freqüente de passivas

Obras Consultadas:

CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza C. PORTUGUÊS: LINGUAGENS 1. São Paulo: Atual, 2005.



Prova Amarela Enem 2010.