segunda-feira, 7 de outubro de 2013

CARACTERÍSTICAS DO BARROCO


    O estilo barroco nasceu em decorrência da crise do Renascimento, ocasionada, principalmente, pelas fortes divergências religiosas e imposições do catolicismo e pelas dificuldades econômicas decorrentes do declínio do comércio com o Oriente.
       Todo o rebuscamento presente na arte e literatura barroca é reflexo dos conflitos dualistas entre o terreno e o celestial, o homem (antropocentrismo) e Deus (teocentrismo), o pecado e o perdão, a religiosidade medieval e o paganismo presente no período renascentista.

1) A arte da contrarreforma
A ideologia do Barroco é fornecida pela Contrarreforma. Em nenhuma outra época se produziu tamanha quantidade de igrejas, capelas, estátuas de santos e monumentos sepulcrais. As obras de arte deviam falar aos fiéis com a maior eficácia possível, mas em momento algum descer até eles. A arte barroca tinha que convencer, conquistar e impor admiração.


2) Conflito entre corpo e alma

O Renascimento definiu-se pela valorização do profano, pondo em voga o gosto pelas satisfações mundanas. Os intelectuais barrocos, no entanto, não alcançam tranquilidade agindo de acordo com essa filosofia. A influência da Contrarreforma fez com que houvesse oposição entre os ideais de vida eterna em contraposição com a vida terrena e do espírito em contraposição à carne. Na visão barroca, não há possibilidade de conciliar essas antíteses: ou se vive a vida sensualmente, ou se foge dos gozos humanos e se alcança a eternidade. A tensão de elementos contrários causa no artista uma profunda angústia: após arrojar-se nos prazeres mais radicais, ele se sente culpado e busca o perdão divino. Assim, ora ajoelha-se diante de Deus, ora celebra as delícias da vida. 

3) O tema da passagem do tempo          

O homem barroco assume consciência integral no que se refere à fugacidade da vida humana (efemeridade): o tempo, veloz e avassalador, tudo destrói em sua passagem. Por outro lado, diante das coisas transitórias (instabilidade), surge a contradição: vivê-las, antes que terminem, ou renunciar ao passageiro e entregar-se à eternidade? 
              

4) Forma tumultuosa

O estilo barroco apresenta forma conturbada, decorrente da tensão causada pela oposição entre os princípios renascentistas e a ética cristã. Daí a frequente utilização de antíteses, paradoxos e inversões, estabelecendo uma forma contraditória, dilemática. Além disso, a utilização de interrogações revela as incertezas do homem barroco frente ao seu período e a inversão de frases a sua tentativa na conciliação dos elementos opostos.

5) Cultismo e conceptismo


      O cultismo caracteriza-se pelo uso de linguagem rebuscada, culta, extravagante, repleta de jogos de palavras e do emprego abusivo de figuras de estilo, como a metáfora e a hipérbole. Veja um exemplo de poesia cultista:


Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das Maravilhas, 
A quem infiéis despedaçaram

O todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo.
(Gregório de Matos)

     Já o conceptismo, que ocorre principalmente na prosa, é marcado pelo jogo de ideias, de conceitos, seguindo um raciocínio lógico, nacionalista, que utiliza uma retórica aprimorada. A organização da frase obedece a uma ordem rigorosa, com o intuito de convencer e ensinar. Veja um exemplo de prosa conceptista:
        "Para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelhos e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister¹ luz, há mister espelho e há mister olhos." (Pe. Antônio Vieira) 
¹mister: necessidade de, precisão.



Figuras de Linguagem no Barroco



         As figuras de estilo mais comuns nos textos barrocos reforçam a tentativa de apreender a realidade por meio dos sentidos. Observe: 


Metáfora: é uma comparação implícita. Tem-se como exemplo o trecho a seguir, escrito por Gregório de Matos:

Se és fogo, como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?


Antítese: reflete a contradição do homem barroco, seu dualismo. Revela o contraste que o escritor vê em quase tudo. Observe a seguir o trecho de Manuel Botelho de Oliveira, no qual é descrita uma ilha, salientando-se seus elementos contrastantes: 

Vista por fora é pouco apetecida
Porque aos olhos por feia é parecida;
Porém, dentro habitada
É muito bela, muito desejada,
É como a concha tosca e deslustrosa,
Que dentro cria a pérola formosa. 


Paradoxo: corresponde à união de duas ideias contrárias num só pensamento. Opõe-se ao racionalismo da arte renascentista. Veja a estrofe a seguir, de Gregório de Matos:

Ardor em firme Coração nascido;
pranto por belos olhos derramado;
incêndio em mares de água disfarçado;
rio de neve em fogo convertido. 


Hipérbole: traduz ideia de grandiosidade, pompa. Veja mais um exemplo de Gregório de Matos:

É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.


Prosopopeia: personificação de seres inanimados para dinamizar a realidade. Observe um trecho escrito pelo Padre Antonio Vieira:

No diamante agradou-me o forte, no cedro o incorruptível, na águia o sublime, no Leão o generoso, no Sol o excesso de Luz.

REDAÇÃO - O POEMA



    Para começar a falar de poesia, nada melhor do que iniciar com este poema da poetisa portuguesa Florbela Espanca.     
                   Fanatismo
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”
                                                                                                                 FLORBELA ESPANCA

REFLETINDO SOBRE O TEXTO...

1. Em que gênero literário está inserido esse texto?
2. Que características esse texto apresenta?
3. Poema X Poesia. Existe diferença?
4. O que é eu-lírico?
5. O que é verso?
6. O que é estrofe?
7. Como se denominam as estrofes?

           Poesia está em toda parte: nas canções de ninar, nas cantigas de roda, nas propagandas, nas letras de música, em uma bela paisagem... 
 A poesia encontra seu núcleo no poema, feito e trabalhado precisamente para consegui-la. Ela é indefinível, porém é definidora.
 
         Poema é o gênero textual que se constrói não apenas com ideias e sentimentos, mas também por meio do emprego do verso e seus recursos musicais – a sonoridade e o ritmo das palavras –, da função poética da linguagem e de palavras com sentido conotativo.
 
       Poesia é o subjetivo, o abstrato enquanto que  poema é o concreto. 

     Veja, abaixo, um poema de Carlos Drummond de Andrade sobre o fazer poético.
                                Poesia
       Gastei uma hora pensando um verso
       que a pena não quer escrever.
       No entanto, ele está cá dentro
       inquieto, vivo.
       Ele está cá dentro
       e não quer sair.
       Mas a poesia deste momento
       inunda minha vida inteira.     
                                       (Carlos D de Andrade)
Eu-lírico (eu-poético)
É a voz que fala no poema e nem sempre corresponde à do autor.

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”                              
                           (Fernando Pessoa)

      Observemos o lirismo dos versos abaixo, em que o eu-lírico exprime seus sentimentos em face do mundo exterior.
“Fui sempre um homem alegre.
 Mas depois que tu partiste,
 Perdi de todo a alegria:
 Fiquei triste, triste, triste.”
                             (Manuel Bandeira)

     O eu-lírico pode  aparecer na   forma feminina, mesmo o autor  sendo do sexo masculino.
     “(...)E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer(...)”
              (Chico Buarque de Holanda)
 
Observe este poema de Manuel Bandeira, há uma classificação para cada estrofe.
O bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.   Sextilha
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,                 Terceto
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem!  Monóstico

     MÉTRICA é a medida ou quantidade de sílabas que um verso possui.
     A divisão e a contagem das sílabas métricas de um verso são chamadas de ESCANSÃO.
     Essa contagem não é feita da mesma forma que a divisão e contagem de sílabas normais.

DENOMINAÇÃO QUANTO AO NÚMERO DE SÍLABAS POÉTICAS
UMA SÍLABA: Monossílabo
DUAS SÍLABAS: Dissílabos
TRÊS SÍLABAS: Trissílabos
QUATRO SÍLABAS: Tetrassílabos
CINCO SÍLABAS: Pentassílabos ou
                           Redondilha menor
SEIS SÍLABAS: Hexassílabo
SETE SÍLABAS: Heptassílabo ou
                           Redondilha maior
OITO SÍLABAS: Octossílabos
NOVE SÍLABAS: Eneassílabos  ou
                         Jâmbicos
DEZ SÍLABAS: Decassílabos ou 
                       Heróicos
ONZE SÍLABAS: Hendecassílabos
DOZE SÍLABAS: Dodecassílabos ou 
                         Alexandrinos
MAIS DE DOZE SÍLABAS:  Bárbaros

RITMO
         Resulta da regular sucessão de sílabas átonas ou fracas e de sílabas tônicas ou fortes.
    Os acentos tônicos, ou as sílabas tônicas, devem repetir-se com intervalos regulares, de  modo a  cadenciar o verso e torná-lo melodioso.  
Observe o ritmo nas estrofes a seguir,  sempre na 2ª sílaba poética.          
                   “Quem dera
                    Que sintas
                    as dores
                    De amores
                    Que louco
                    Senti!
                    Quem dera
                    Que sintas!...
                    - Não negues,
                    Não mintas...
                    Eu vi!...”    (Casimiro de Abreu)

       Agora observe estes versos que apresentam acentuação na 3ª, na 6ª e na 9ª sílabas. 

Contemplando o teu vulto sagrado,
 Compreendemos o nosso dever;
 E o Brasil, por seus filhos amado,
 Poderoso e feliz há de ser.”
                      (Hino à Bandeira – Olavo Bilac)

RIMA
  São coincidências sonoras que podem ocorrer em qualquer lugar dos versos, dependendo da escolha do poeta.

QUANTO A TERMINAÇÃO DO SOM

1) PERFEITAS:
   sereno e moreno; neve e leve

2) IMPERFEITAS:
   Deus e céus; estrela e vela

 
QUANTO À TONICIDADE

1) AGUDAS (oxítonas)
 feroz e atroz; amor e clamor

2) GRAVES (paroxítonas)
  festa e manifesta; flores e cores

3) ESDRÚXULAS (proparoxítonas)
  gico e trágico; rico e orico

QUANTO AO VOCABULÁRIO
POBRES
 Mesma classe gramatical
Ex: Coração e oração
RICAS
 Classe gramatical diferente
Ex: Prece e adormece
RIMA INTERIOR
“Como são cheirosas as primeiras rosas” (A. de Guimarães)
Donzela bela, que me inspira a lira
 Um canto santo de fremente amor
 Ao bardo o cardo da tremenda senda
 Estanca arranca-lhe a terrível dor.”
                                   (Castro Alves)

DISPOSIÇÃO DAS RIMAS
NAS ESTROFES
RIMAS EMPARELHADAS (AABB)
“Ele deixava atrás tanta recordação! A  
E o pesar, a saudade, até no próprio chão, A
Debaixo dos seus pés, parece que que gemia, B
Levanta-se o sol, vinha rompendo o dia(...)” B
(A.   de Oliveira)
(B.        
RIMAS ALTERNADAS (ABAB)

“Tu és um beijo materno! A
Tu és um riso infantil, B
Sol entre as flores de inverno, A
Rosa entre as flores de abril! ” B
                                                 ( J. de Deus)

RIMAS INTERPOLADAS
OU OPOSTAS (ABBA)

“ Saudade! Olhar de minha mãe rezando  A
  E o pranto lento deslizando em fio...       B
  Saudade! Amor d minha terra... O rio      B
  Cantigas de águas claras soluçando. “    A
(Costa e Silva)

VERSOS BRANCOS
      
 São os versos sem rima.
                   Envelhecer
Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas. 
                                    (Mário Quintana
VERSO LIVRE
     São os versos que não obedecem aos preceitos da versificação tradicional, em relação à métrica e ao ritmo.
 
  Observe este poema de  Ferreira Gullar 

Não há vagas
 
O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
 – porque o poema, senhores,
Está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
O homem sem estômago
a mulher de nuvens
A fruta sem preço
             O poema, senhores,
             Não fede
             nem cheira.