segunda-feira, 7 de outubro de 2013

REDAÇÃO - O POEMA



    Para começar a falar de poesia, nada melhor do que iniciar com este poema da poetisa portuguesa Florbela Espanca.     
                   Fanatismo
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”
                                                                                                                 FLORBELA ESPANCA

REFLETINDO SOBRE O TEXTO...

1. Em que gênero literário está inserido esse texto?
2. Que características esse texto apresenta?
3. Poema X Poesia. Existe diferença?
4. O que é eu-lírico?
5. O que é verso?
6. O que é estrofe?
7. Como se denominam as estrofes?

           Poesia está em toda parte: nas canções de ninar, nas cantigas de roda, nas propagandas, nas letras de música, em uma bela paisagem... 
 A poesia encontra seu núcleo no poema, feito e trabalhado precisamente para consegui-la. Ela é indefinível, porém é definidora.
 
         Poema é o gênero textual que se constrói não apenas com ideias e sentimentos, mas também por meio do emprego do verso e seus recursos musicais – a sonoridade e o ritmo das palavras –, da função poética da linguagem e de palavras com sentido conotativo.
 
       Poesia é o subjetivo, o abstrato enquanto que  poema é o concreto. 

     Veja, abaixo, um poema de Carlos Drummond de Andrade sobre o fazer poético.
                                Poesia
       Gastei uma hora pensando um verso
       que a pena não quer escrever.
       No entanto, ele está cá dentro
       inquieto, vivo.
       Ele está cá dentro
       e não quer sair.
       Mas a poesia deste momento
       inunda minha vida inteira.     
                                       (Carlos D de Andrade)
Eu-lírico (eu-poético)
É a voz que fala no poema e nem sempre corresponde à do autor.

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”                              
                           (Fernando Pessoa)‏

      Observemos o lirismo dos versos abaixo, em que o eu-lírico exprime seus sentimentos em face do mundo exterior.
“Fui sempre um homem alegre.
 Mas depois que tu partiste,
 Perdi de todo a alegria:
 Fiquei triste, triste, triste.”
                             (Manuel Bandeira)‏

     O eu-lírico pode  aparecer na   forma feminina, mesmo o autor  sendo do sexo masculino.
     “(...)E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer(...)”
              (Chico Buarque de Holanda)
‏
 
Observe este poema de Manuel Bandeira, há uma classificação para cada estrofe.
O bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.   Sextilha
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,                 Terceto
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem!  Monóstico

     MÉTRICA é a medida ou quantidade de sílabas que um verso possui.
     A divisão e a contagem das sílabas métricas de um verso são chamadas de ESCANSÃO.
     Essa contagem não é feita da mesma forma que a divisão e contagem de sílabas normais.

DENOMINAÇÃO QUANTO AO NÚMERO DE SÍLABAS POÉTICAS
UMA SÍLABA: Monossílabo
DUAS SÍLABAS: Dissílabos
TRÊS SÍLABAS: Trissílabos
QUATRO SÍLABAS: Tetrassílabos
CINCO SÍLABAS: Pentassílabos ou
                           Redondilha menor
SEIS SÍLABAS: Hexassílabo
SETE SÍLABAS: Heptassílabo ou
                           Redondilha maior
OITO SÍLABAS: Octossílabos
NOVE SÍLABAS: Eneassílabos  ou
                         Jâmbicos
DEZ SÍLABAS: Decassílabos ou 
                       Heróicos
ONZE SÍLABAS: Hendecassílabos
DOZE SÍLABAS: Dodecassílabos ou 
                         Alexandrinos
MAIS DE DOZE SÍLABAS:  Bárbaros

RITMO
         Resulta da regular sucessão de sílabas átonas ou fracas e de sílabas tônicas ou fortes.
    Os acentos tônicos, ou as sílabas tônicas, devem repetir-se com intervalos regulares, de  modo a  cadenciar o verso e torná-lo melodioso.  
Observe o ritmo nas estrofes a seguir,  sempre na 2ª sílaba poética.          
                   “Quem dera
                    Que sintas
                    as dores
                    De amores
                    Que louco
                    Senti!
                    Quem dera
                    Que sintas!...
                    - Não negues,
                    Não mintas...
                    Eu vi!...”    (Casimiro de Abreu)

       Agora observe estes versos que apresentam acentuação na 3ª, na 6ª e na 9ª sílabas. 

“Contemplando o teu vulto sagrado,
 Compreendemos o nosso dever;
 E o Brasil, por seus filhos amado,
 Poderoso e feliz há de ser.”
                      (Hino à Bandeira – Olavo Bilac)

RIMA
  São coincidências sonoras que podem ocorrer em qualquer lugar dos versos, dependendo da escolha do poeta.

QUANTO A TERMINAÇÃO DO SOM

1) PERFEITAS:
   sereno e moreno; neve e leve

2) IMPERFEITAS:
   Deus e céus; estrela e vela

 
QUANTO À TONICIDADE

1) AGUDAS (oxítonas)
 feroz e atroz; amor e clamor

2) GRAVES (paroxítonas)
  festa e manifesta; flores e cores

3) ESDRÚXULAS (proparoxítonas)
  mágico e trágico; lírico e onírico

QUANTO AO VOCABULÁRIO
POBRES
 Mesma classe gramatical
Ex: Coração e oração
RICAS
 Classe gramatical diferente
Ex: Prece e adormece
RIMA INTERIOR
“Como são cheirosas as primeiras rosas” (A. de Guimarães)
“Donzela bela, que me inspira a lira
 Um canto santo de fremente amor
 Ao bardo o cardo da tremenda senda
 Estanca arranca-lhe a terrível dor.”
                                   (Castro Alves)

DISPOSIÇÃO DAS RIMAS
NAS ESTROFES
RIMAS EMPARELHADAS (AABB)
“Ele deixava atrás tanta recordação! A  
E o pesar, a saudade, até no próprio chão, A
Debaixo dos seus pés, parece que que gemia, B
Levanta-se o sol, vinha rompendo o dia(...)” B
(A.   de Oliveira)
(B.        
RIMAS ALTERNADAS (ABAB)

“Tu és um beijo materno! A
Tu és um riso infantil, B
Sol entre as flores de inverno, A
Rosa entre as flores de abril! ” B
                                                 ( J. de Deus)

RIMAS INTERPOLADAS
OU OPOSTAS (ABBA)

“ Saudade! Olhar de minha mãe rezando  A
  E o pranto lento deslizando em fio...       B
  Saudade! Amor d minha terra... O rio      B
  Cantigas de águas claras soluçando. “    A
(Costa e Silva)

VERSOS BRANCOS
      
 São os versos sem rima.
                   Envelhecer
Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas. 
                                    (Mário Quintana
VERSO LIVRE
     São os versos que não obedecem aos preceitos da versificação tradicional, em relação à métrica e ao ritmo.
 
  Observe este poema de  Ferreira Gullar 

Não há vagas
 
O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
 – porque o poema, senhores,
Está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
O homem sem estômago
a mulher de nuvens
A fruta sem preço
             O poema, senhores,
             Não fede
             nem cheira.

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